03 - O que nos resta?
Leve, leve a lembrança que me resta daquele dia em que, por causa de uns homens que andavam aos tiros lá por Lisboa, não tive de ir à escola.
Foi um dia diferente, pelo inesperado dos acontecimentos, e porque, como não podia ficar sozinho em casa nesse dia de lutas, devido à minha tenra idade, tive que acompanhar a minha mãe para o seu trabalho, na fábrica.
Claro que, teria que me manter quieto e sossegado, para não lhe interromper a labuta, ou chamar a atenção reprovadora do “Mestre Gomes”, que, por ser ali dos lados de Nisa, esticava algumas sílabas no inicio e no fim das palavras que pronunciava.
Várias gerações, antes da minha, tinham lutado por aquele dia que finalmente chegara, e com ele, a esperança.
A esperança num País com liberdade, acima de tudo, mas também com justiça, saúde, educação, habitação, igualdade social e modernização.
Expectativas justas e legitimas, num futuro melhor para esses lutadores populares e seus descendentes, enfim, para o País.
Onde param essas esperanças, essas expectativas, esses sonhos?
Onde param as causas?
Onde pára a vontade daqueles que viveram 74?
Desapareceu ou está adormecida?
Foi arrancada ou está perdida?
Os anos continuam a passar, e quase todos, quase todos os dias nos percorre o sentimento de que caminhamos para coisa nenhuma, que a estrada que palmilhamos não é a nossa, que seguimos sem esperança, sem expectativa ou convicção.
E o pior, parece que não nos importamos.
Deixa andar, talvez amanhã ou no outro dia, apareça novo salvador, e, se também ele for crucificado, resta-nos a esperança de que seremos salvos.
Sentimos que a vida que vivemos não deveria ser a nossa.
O esforço que se faz, para não parecer esforçada a tarefa de ter que educar os filhos.
Os pais e avós a viver em casa dos filhos, muitas vezes devido à força dos laços familiares, é certo, mas quantas vezes não é por não haver dinheiro para pagar os lares ou casas de repouso, ou quantas vezes não é para os filhos poderem contar com as raquíticas pensões dos mais idosos.
As prestações acumulam-se.
O desemprego está à espreita, à espera de apanhar o próximo que passe.
As empresas, umas encerram por tudo, outras por nada.
A frustração vai engolindo geração após geração.
A indignação apodera-se de nós, pela oportunidade perdida.
Ai, Ai que me fogem os sonhos, o futuro e a confiança.
O que somos nós neste laboratório português, em que se experimenta, faz e refaz, destrói e conserta há mais de 30 anos?
A consciência colectiva na melhoria é quase nula.
Ao menos temos o “Magalhães”, mas do que nos serve um ignorante com um computador nas mãos?
O que nos resta?
Talvez a esperança de quem acredita em Portugal, de quem acredita que somos nós, diariamente, os responsáveis pela mudança e pelo sacrifício na preparação do nosso futuro.
Exigindo dignidade e responsabilidade no exercício das funções públicas e privadas.
Todos temos responsabilidades na construção do País, mesmo que desalentados e convictos que entre nós há muitos que não querem saber, que não querem acreditar.
Acredita ou resigna-te.
Ai revolução o que te fizeram, o que te fizemos.
O povo unido já estará arrependido?
Leve, leve a lembrança que me resta daquele dia em que, por causa de uns homens que andavam aos tiros lá por Lisboa, não tive de ir à escola.
Foi um dia diferente, pelo inesperado dos acontecimentos, e porque, como não podia ficar sozinho em casa nesse dia de lutas, devido à minha tenra idade, tive que acompanhar a minha mãe para o seu trabalho, na fábrica.
Claro que, teria que me manter quieto e sossegado, para não lhe interromper a labuta, ou chamar a atenção reprovadora do “Mestre Gomes”, que, por ser ali dos lados de Nisa, esticava algumas sílabas no inicio e no fim das palavras que pronunciava.
Várias gerações, antes da minha, tinham lutado por aquele dia que finalmente chegara, e com ele, a esperança.
A esperança num País com liberdade, acima de tudo, mas também com justiça, saúde, educação, habitação, igualdade social e modernização.
Expectativas justas e legitimas, num futuro melhor para esses lutadores populares e seus descendentes, enfim, para o País.
Onde param essas esperanças, essas expectativas, esses sonhos?
Onde param as causas?
Onde pára a vontade daqueles que viveram 74?
Desapareceu ou está adormecida?
Foi arrancada ou está perdida?
Os anos continuam a passar, e quase todos, quase todos os dias nos percorre o sentimento de que caminhamos para coisa nenhuma, que a estrada que palmilhamos não é a nossa, que seguimos sem esperança, sem expectativa ou convicção.
E o pior, parece que não nos importamos.
Deixa andar, talvez amanhã ou no outro dia, apareça novo salvador, e, se também ele for crucificado, resta-nos a esperança de que seremos salvos.
Sentimos que a vida que vivemos não deveria ser a nossa.
O esforço que se faz, para não parecer esforçada a tarefa de ter que educar os filhos.
Os pais e avós a viver em casa dos filhos, muitas vezes devido à força dos laços familiares, é certo, mas quantas vezes não é por não haver dinheiro para pagar os lares ou casas de repouso, ou quantas vezes não é para os filhos poderem contar com as raquíticas pensões dos mais idosos.
As prestações acumulam-se.
O desemprego está à espreita, à espera de apanhar o próximo que passe.
As empresas, umas encerram por tudo, outras por nada.
A frustração vai engolindo geração após geração.
A indignação apodera-se de nós, pela oportunidade perdida.
Ai, Ai que me fogem os sonhos, o futuro e a confiança.
O que somos nós neste laboratório português, em que se experimenta, faz e refaz, destrói e conserta há mais de 30 anos?
A consciência colectiva na melhoria é quase nula.
Ao menos temos o “Magalhães”, mas do que nos serve um ignorante com um computador nas mãos?
O que nos resta?
Talvez a esperança de quem acredita em Portugal, de quem acredita que somos nós, diariamente, os responsáveis pela mudança e pelo sacrifício na preparação do nosso futuro.
Exigindo dignidade e responsabilidade no exercício das funções públicas e privadas.
Todos temos responsabilidades na construção do País, mesmo que desalentados e convictos que entre nós há muitos que não querem saber, que não querem acreditar.
Acredita ou resigna-te.
Ai revolução o que te fizeram, o que te fizemos.
O povo unido já estará arrependido?
Mário Bugalhão